Pessoal,
segue o link do vídeo da palestra de Ken Robinson, muito interessante, sobre o sentido da educação. Ele enfatiza que precisamos superar o modelo único de escola e de currículo; temos que imaginar uma escola que consiga reconhecer a pluralidade de talentos. Sob o risco de cair no palavreado que cerca a educação - o desenvolvimento de competências, de habilidades -, o palestrante consegue escapar desse risco questionando o modelo que temos de educação: formar somente pessoas preparadas para enfrentar o vestibular, que só conseguem, quando conseguem, desenvolver as capacidades cognitivas adequadas para a inserção no mercado de trabalho, e não outras potencialidades do ser humano.
http://www.ted.com/talks/lang/por_pt/ken_robinson_says_schools_kill_creativity.html
Um abraço,
Nicolau
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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Reflexão sobre o sentido da Educação
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Sobre o conceito de formação
Diferenças entre o que aprendemos e o que nos afeta como seres humanos
José Sérgio Fonseca de Carvalho Doutor em filosofia da educação pela Feusp
Em colunas anteriores, fiz inúmeras referências ao conceito de formação. Trata-se de uma noção central nos discursos educacionais, mas que de tão recorrente passou a padecer de uma 'anemia semântica'. Seu uso constante e indiscriminado - que o identifica de forma imediata com a transmissão de informações, o desenvolvimento de competências ou a difusão de conhecimentos - tem resultado na perda dos sentidos que historicamente lhe foram associados. Não que sua história seja progressiva e linear, como se entre sua formulação primeira na antiguidade e os sentidos contemporâneos houvesse só continuidade. Mas o reconhecimento de rupturas e transformações históricas num conceito não pode resultar no esvanecimento de seu campo de significação.
É claro que todo processo de formação implica alguma aprendizagem, mas com ela não se confunde. A aprendizagem indica simplesmente que alguém veio a saber algo que não sabia: uma informação, um conceito, uma capacidade. Mas não implica que esse 'algo novo' que se aprendeu nos transformou em um novo 'alguém'. E essa é uma característica forte do conceito de formação: uma aprendizagem só é formativa na medida em que opera transformações na constituição daquele que aprende. É como se o conceito de formação indicasse a forma pela qual nossas aprendizagens e experiências nos constituem como um ser singular no mundo.
Nem tudo que aprendemos - ou vivemos - deixa traços que nos formam como sujeitos. As notícias dos telejornais, o trânsito de todas as manhãs, as informações sobre o uso de um novo aparelho, uma técnica para não errar mais a crase: tudo isso pode ser vivido ou aprendido sem deixar traços, sem nos afetar. Uma experiência torna-se formativa por seu caráter afetivo; um livro que lemos, um filme a que assistimos ou uma bronca que tomamos ressoa em nosso interior, como a nota de um instrumento que, ao ser tocada, ressoa na corda de outro. Trata-se, pois, de um encontro entre um evento, um objeto da cultura e um sujeito que, ao se aproximar de algo que lhe era exterior, caminha em direção à constituição de sua própria vida interior.
Por ter esse caráter de encontro constitutivo, os resultados de uma experiência formativa são sempre imprevisíveis e incontroláveis. É relativamente simples saber se alguém aprendeu uma informação ou em que grau desenvolveu uma competência. Mas é impossível saber com precisão em que sentido e com qual intensidade a apreciação de uma obra de arte teve um papel formativo em alguém. Ao comentar o conflito potencial entre o recorrente desejo de controle da ação pedagógica e o caráter formativo da literatura, Antonio Candido ressaltou que a experiência literária representa uma poderosa força indiscriminada de iniciação na vida. Ela não corrompe nem edifica, mas por trazer livremente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal, humaniza em sentido profundo, porque faz viver. Assim é uma experiência educativa com valor formativo. Um exercício de liberdade que exige do educador a responsabilidade pelas escolhas e a abdicação do controle sobre seus efeitos na formação de um sujeito.
José Sérgio Fonseca de Carvalho Doutor em filosofia da educação pela Feusp
Em colunas anteriores, fiz inúmeras referências ao conceito de formação. Trata-se de uma noção central nos discursos educacionais, mas que de tão recorrente passou a padecer de uma 'anemia semântica'. Seu uso constante e indiscriminado - que o identifica de forma imediata com a transmissão de informações, o desenvolvimento de competências ou a difusão de conhecimentos - tem resultado na perda dos sentidos que historicamente lhe foram associados. Não que sua história seja progressiva e linear, como se entre sua formulação primeira na antiguidade e os sentidos contemporâneos houvesse só continuidade. Mas o reconhecimento de rupturas e transformações históricas num conceito não pode resultar no esvanecimento de seu campo de significação.
É claro que todo processo de formação implica alguma aprendizagem, mas com ela não se confunde. A aprendizagem indica simplesmente que alguém veio a saber algo que não sabia: uma informação, um conceito, uma capacidade. Mas não implica que esse 'algo novo' que se aprendeu nos transformou em um novo 'alguém'. E essa é uma característica forte do conceito de formação: uma aprendizagem só é formativa na medida em que opera transformações na constituição daquele que aprende. É como se o conceito de formação indicasse a forma pela qual nossas aprendizagens e experiências nos constituem como um ser singular no mundo.
Nem tudo que aprendemos - ou vivemos - deixa traços que nos formam como sujeitos. As notícias dos telejornais, o trânsito de todas as manhãs, as informações sobre o uso de um novo aparelho, uma técnica para não errar mais a crase: tudo isso pode ser vivido ou aprendido sem deixar traços, sem nos afetar. Uma experiência torna-se formativa por seu caráter afetivo; um livro que lemos, um filme a que assistimos ou uma bronca que tomamos ressoa em nosso interior, como a nota de um instrumento que, ao ser tocada, ressoa na corda de outro. Trata-se, pois, de um encontro entre um evento, um objeto da cultura e um sujeito que, ao se aproximar de algo que lhe era exterior, caminha em direção à constituição de sua própria vida interior.
Por ter esse caráter de encontro constitutivo, os resultados de uma experiência formativa são sempre imprevisíveis e incontroláveis. É relativamente simples saber se alguém aprendeu uma informação ou em que grau desenvolveu uma competência. Mas é impossível saber com precisão em que sentido e com qual intensidade a apreciação de uma obra de arte teve um papel formativo em alguém. Ao comentar o conflito potencial entre o recorrente desejo de controle da ação pedagógica e o caráter formativo da literatura, Antonio Candido ressaltou que a experiência literária representa uma poderosa força indiscriminada de iniciação na vida. Ela não corrompe nem edifica, mas por trazer livremente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal, humaniza em sentido profundo, porque faz viver. Assim é uma experiência educativa com valor formativo. Um exercício de liberdade que exige do educador a responsabilidade pelas escolhas e a abdicação do controle sobre seus efeitos na formação de um sujeito.
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