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domingo, 27 de fevereiro de 2011

Música - Elevador (2 anos)

Car@s Alun@s,

segue uma música para pensarmos nas formas de sociabilidade urbana. Elevador, de André Abujamra, que retrata bem o anonimato entre vizinhos e a atitude de reserva entre os habitantes de uma cidade grande.



Elevador

Essa Canção é pra você
Mesmo antes de eu te conhecer
Será que a gente já se cruzou
Eu agachei você passou
Desci no 7 você subiu no 8
No mesmo elevador
Será que a gente mora perto
Será que a gente mora longe
Onde você está
Por que você se esconde
Essa pausa é natural
Coração pequeninim
Como será que se é
Eu te espero junto a mim
Eu sei que você existe
Por isso não estou triste
E posso até esperar meu amor
Que quando for eu vou saber
Quem é você

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Vídeo sobre Transporte (2º anos) - "Taken for a ride" (parte 1)

Car@s alun@s,
segue um documentário - "Taken for a ride" - feito sobre o lobby das grandes empresas de automóveis nos EUA, principalmente a General Motors, que destruiu o sistema de transporte público (os bondes) para a construção de rodovias e estradas, privilegiando o transporte individual. Há nesse vídeo várias passagens que ilustram temas que iremos tratar nesse semestre: como se produz o caos urbano e a morte das cidades? Qual a relação entre capitalismo e a produção do espaço? Como ocorre a segregação urbana nas grandes cidades?



Para quem se interessou pelo filme, vale a pena conferir na íntegra no youtube:
2ª parte:

3ª parte:

4ª parte:

5ª parte:

6ª parte:

O que é cidade? - Download do livro 2º anos


Car@s Alun@s,
segue o link para realizar o download de um livro muito bom e pequeno, de Raquel Rolnik, sobre a história das cidades. O livro parte da antiguidade até os dias atuais. A leitura obrigatória - que será cobrada na prova - será o trecho que começa na página 40 (no Adobe está na página 21) até a página 53, com o subtítulo "Separar e reinar: a questão da segregação urbana".
Para realizar o download é necessário esperar alguns minutos, pois o arquivo é pesado; depois de 390 segundos aparecerá o link download file now, clique nele e aguarde o término do download.

http://www.4shared.com/get/GR5AR5Av/O_que__a_cidade.html

Boa leitura a todos,
Prof. Nicolau

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Histórias de um suburbano convicto

ALESSANDRO BUZO

Folha de São Paulo, 24/08/2008 – Caderno DNA Paulistano 4/ Extremo Leste

Nos bairros nobres, uma viatura me dá sensação de proteção, já no Itaim Paulista fico pensando: - Será que vão me enquadrar?

Estava eu na produtora que trabalho, quando surgiu um trampo no Itaim Bibi, alguém tinha que ir no INPI [Instituto Nacional da Propriedade Industrial], se informar sobre o que faltava para registrar o nome "Buzão - Circular Periférico", que é o quadro que apresento no programa "Manos e Minas", da TV Cultura. Me ofereci para ir eu mesmo.

Vinte minutos e o buzão vira na rua Renato Paes de Barros, o meu destino era a rua Tabapuã, uma travessa, dei sinal, desci e pensei em almoçar, num restaurante vi placa indicando pratos como risoto de camarão, molho não sei das quantas e preços na faixa de R$ 35.

Outros parecidos, desisti e virei na rua Tabapuã, muitas câmeras por todo lado, muros altos, em um deles plaquinhas traziam o desenho de um cachorrinho e a frase: "Retire os dejetos de seu animal, você está sendo filmado".
Três câmeras apontadas, que bom não estar com um cachorrinho. Imaginei o cachorro defecando e o dono tentando fugir da cena do crime sem limpar, vários seguranças armados pulando do muro alto, sirenes, holofotes. - Não se mexa, você está cercado.
Cheguei no INPI, câmeras no portão de entrada, na recepção a mulher disse: - O sr. pode tirar o boné para tirar uma foto.
Imaginei o Big Brother, não deve ter tanta câmera como a rua Tabapuã.
Moro no Itaim Paulista, bairro no extremo leste de SP, com cerca de 320 mil habitantes.
Um bom lugar apesar do descaso público e dos 38 km que separam a gente do centro. Ali me sinto bem. É lá que escrevo meus livros e é lá que cresce meu filho, gosto tanto do lugar que costumam me chamar de suburbano convicto.
Algumas coisas mudaram, como a Estação de Trem do Itaim Paulista, nem sonhava em ver uma ali com escadas rolantes, até elevador para deficiente físico tem, coisa de primeiro mundo, querendo saber mais sobre o assunto acesse minha coluna no site (www.itaim paulista.com.br), O Trem do Século XXI, pra variar mostro que nem tudo são flores.
O contraste social entre o Itaim Bibi e o Itaim Paulista é gritante.
Não interessa aos que hoje têm o poder, dos políticos aos donos de canais de TV, que o povo se instrua, para manter esse contraste que a alguns interessa, é mais fácil para ele controlar e manter o poder, se o jovem ouve "Créu", melhor para quem está no poder, o povo da periferia ouvindo Latino, Ivete Sangalo, Daniel, Harmonia do Samba, do que escutando Racionais Mc's, MV Bill, Rappin Hood, GOG e outros.
A PM por exemplo, na região central e bairros nobres, uma viatura me dá sensação de proteção, já no Itaim Paulista fico pensando: - Será que vão me enquadrar?
Assim como a periferia é o quilombo moderno e todos nós (até quem não se assume) somos quilombolas, a polícia de hoje é o capitão do mato de ontem. Vamos falar de saúde, estava um tempo, sofrendo de dor no ouvido, meu amigo Toni Nogueira da produtora que trabalho pegando no meu pé: - Vai no médico, ouvido não é brincadeira, vai esperar ficar surdo?
Explicava pra ele que na periferia não adiantava nada eu ir no hospital, porque tudo vai pro clinico geral e ele só receita Cataflan, disse isso algumas vezes, inclusive nos que a dor apertava e eu tomava Cataflan, me auto medicando.
O assunto voltou a tona, ele disse: - Chega cedo que te pago um especialista. Fomos até o Hospital Paulista, na Vila Clementino, a recepcionista disse: - Qual o convênio ? Meu amigo disse: - É particular. - Sim senhor, a consulta é R$ 150.
Pagamos e fomos atendidos pelo dr. Miguel Kaoru Yoshio, simplesmente um dos diretores do hospital, em meia hora ele examinou boca, nariz e finalmente ouvido, fez 1.001 perguntas e uma lavagem, eu não tinha nada, a lavagem resolveu o problema e nem remédio ele receitou.
Uma semana depois meu sogro, que é aposentado e trabalhou a vida toda, estava com dor de ouvido, perdeu uma manhã na fila para chegar ao dr., o mesmo sentado em sua cadeira, ouviu as lamentações de dores do meu sogro, pediu para ele virar a cabeça, nem levantou, não encostou um dedo e disse: - Tem um caroço no seu ouvido. E receitou CATAFLAN.
Se o espaço fosse maior, iria falar de educação e outros assuntos, mas fica para a próxima. 



ALESSANDRO BUZO é escritor e apresentador 

domingo, 15 de agosto de 2010

Ódio contra nordestinos é recorrente na internet

Reportagem no Portal Uol demonstra como o ódio aos nordestinos em São Paulo ainda não é coisa do passado. Muitas comunidades da internet apresentam os nordestinos como verdadeiros outsiders na sociedade paulistana; mensagens carregadas de teor racista e preconceituoso são recorrentes, tais como afirmar que os nordestisnos sujam a cidade de São Paulo, emporcam a cidade etc. Como afirmou Nobert Elias, os estabelecidos constroem barreiras para impedir a integração dos recém-chegados.


Comuns na web, comunidades que expressam ódio a nordestinos são alvo da PF e do MP
Carlos Madeiro
Especial para o UOL Notícias

Em Maceió
A propagação de comunidades na internet com mensagens de discriminação contra nordestinos está sendo questionada pelo Ministério Público de Pernambuco e investigada pela Polícia Federal. A polêmica sobre referências preconceituosas foi denunciada ao MP em junho, logo após as enchentes que atingiram as cidades de Alagoas e Pernambuco.
O pivô da revolta foi uma comunidade do Orkut intitulada “Odeio Nordestino”, que abriu tópicos para "lamentar a sobrevivência" das vítimas enchentes e manifestar temor por uma “nova invasão” de nordestinos a São Paulo. “Pessoal, com essas enchentes no Nordeste acho que os cabeçudos vão vir em massa pra SP. Vai ter mais lixo do que já tem aqui”, afirmou uma frequentadora da comunidade. “Seria bom se eles morressem na enchente, afinal nordestino é um animal que não sabe nadar”, disse outro.
Mas não são apenas ataques às vítimas das enchentes que são encontradas na internet. Numa rápida busca, é possível ver que existem vários sites e comunidades de supostos moradores do Sul e Sudeste do país com ataques a nordestinos.
Na comunidade "Lugar de nordestino é no Nordes", com 154 membros no Orkut, um dos tópicos de comentários diz que os "nordestinos estão prejudicando os paulistas". "Peço que os paulistas expulsem os nordestinos de nossas terras, pois além de roubarem nosso espaço, ainda tiram onda dos paulistas", afirma a usuária Patrícia. "Voltem para o rebanho de vcs (sic) carniça", escreve uma usuária.
Os exemplos discriminatórios não se restringem ao Orkut. “Essa comunidade é para todos os paulistas, paulistanos e sulistas que estão cansados de ver e ter que aceitar esses ‘forasteiros’ usurparem da nossa terra, trazendo costumes imundos, emporcalhando as cidades, aumentando a criminalidade e agindo como se essa terra fossem deles”, diz um trecho do site “Desabafo Brasil”, que sugere que os usuários ingressem em sites preconceituosos.
Outro exemplo está num texto intitulado “manifesto confederalista”. "Quantas vezes você, paulista, presenciou cenas de desrespeito praticado por migrantes? Invadirem espaços, agirem como se estivessem em sua terra. Imporem sua cultura e costumes à nossa vontade. Inundam nosso estado, exigem serviços, põem-se de 'vítimas', apagam nossa identidade. Assim somos desrespeitados", diz o texto de apresentação.


MP pede providências
Diante das denúncias apresentadas no período pós-enchentes, o MP decidiu investigar as pessoas que fazem parte destas comunidades. A denúncia original foi contra a comunidade “Odeio Nordestino”. “Essa comunidade não é de uma ou duas pessoas, mas sim são cerca de 400 pessoas. E nós constatamos ofensas, preconceito, racismo, formação de quadrilha. E esse comportamento, além de criminoso, é perigoso, pois incita violência”, afirmou o promotor José Lopes Filho, coordenador da área de crimes contra a ordem tributária do MP de Pernambuco.
Com a repercussão do caso no Estado, os moderadores da comunidade apagaram os comentários que atacavam as vítimas das enchentes e restringiram o acesso ao conteúdo – agora, para participar, é preciso ser aprovado.
Segundo o promotor, o MP-PE acionou o MP federal e o de São Paulo (suposta origem do crime) e deu entrada com uma notícia-crime na PF. Várias comunidades do Orkut foram denunciadas. "Todo o trabalho acontece em sigilo pela PF. Essas investigações são demoradas; às vezes leva meses. É preciso rastreamento, quebra de IP [endereço de identificação de um computador], até mesmo procedimentos internacionais. Eu estive com o relações públicas da PF na última semana e ele me informou que as investigações estavam de vento em popa", afirmou Lopes.
O promotor disse que conseguiu chegar ao IP dos usuários da comunidade. "Eles começaram a criar fakes [nome de usuário falso], mas nós conseguimos rastrear o IP dessas pessoas. Isso facilita identificar o usuário. É preciso pedir o horário GMT para sabermos exatamente de onde partiu os comentários. Todos os dados que conseguimos foram entregues à PF.”
Segundo o promotor, os integrantes das comunidades anunciaram até a posse de artefatos explosivos. “Essas comunidades podem ter vinculações com grupos neonazistas. Talvez essa análise desbarate até quadrilhas. Se identificados, essas pessoas podem ser condenadas por racismo, preconceito e, eventualmente, por formação de quadrilha e apologia ao crime”, informou.
Lopes ainda criticou a empresa Google, detentora do Orkut, que se recusaria a retirar do ar comunidades com conteúdo racista. "Eles se valem da lei norte-americana, da independência que possui por ser de outro país”, disse o promotor.


Comunidades de apoio
Depois da repercussão do ataque às vítimas das enchentes, muitas comunidades de apoio aos nordestinos foram criadas e outras, mais antigas, ganharam adeptos. A principal delas, intitulada “Orgulho de Ser Nordestino”, possui hoje mais de 133 mil membros, e tem vários comentários de pessoas que passaram por casos de discriminação.
Já outras comunidades foram criadas recentemente para criticar o preconceito de supostos moradores do Sul e Sudeste. Na comunidade “Eu odeio quem odeia nordestino”, por exemplo, muitos usuários pedem que os internautas denunciem as comunidades que expressam preconceito contra os moradores da região.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Delicadeza


15 de maio de 2010

MARIA RITA KEHL - O Estado de S.Paulo

Se eu fosse Deus e se eu existisse, executaria em São Paulo uma prosaica providência administrativa. Tombaria a cidade inteira pelos próximos dez anos: como está, fica. Não se derruba mais nada, não se constrói mais nada. Tratem de melhorar a cidade que já existe: monstruosa, desigual, mal planejada e mal cuidada. Se é para movimentar dinheiro, invistam-se nos espaços públicos: ruas, praças, jardins, calçadas, iluminação, centros de lazer, prevenção contra enchentes - tudo o que faz, de um amontoado de moradias, algo parecido com a magnífica invenção humana chamada cidade. Investir em urbanidade também dá retorno financeiro.

Vista assim do alto, do ponto de vista celeste, São Paulo mais parece uma cidade bombardeada. Imensas crateras em todos os bairros, quarteirões de casas derrubadas, populações pobres jogadas de lá pra cá à procura de lugar para criar novos campos de refugiados de onde serão expulsas pouco tempo depois. Inundações, trânsito bloqueado, gente desesperada presa dentro dos carros parados, gente enlouquecendo pela dificuldade de tocar o dia a dia. Gente que sente no corpo e na alma os efeitos de viver sob uma cúpula negra de poluição que só se vê de cima. Parece uma guerra, mas é só o capitalismo: bombando, enriquecendo alguns e empobrecendo o resto. Enquanto a cidade se torna infernal, se oferece aos que podem pagar o lenitivo de viver numa torre, bem acima do chão, de onde se finge escapar da realidade urbana. O uso novo-rico da palavra torre substituiu as obsoletas "edifício" e "prédio", além da simpática e infantil "arranha-céu". Nas histórias de fadas, a torre era o lugar onde se encarceravam as princesas. Privilégio em São Paulo é viver encerrado numa torre.

Mas como parar todos os negócios imobiliários da cidade? E a economia? E a geração de empregos? Digamos que, se eu fosse Deus, daria um jeito nisso. Se uma prefeitura rica como a nossa, em vez de se tornar cliente de um setor poderoso, investisse os impostos que recebe em outras atividades, em pouco tempo a cidade recuperaria sua pujança. Digamos que seja possível planejar um pouco a economia municipal. Só assim deixaríamos de ser reféns de quem já detém poder econômico. Dez anos são menos que uma fração de segundo pra quem vê o tempo do ponto de vista da eternidade. Mas quem sabe, tempo suficiente para que a cidade pudesse eleger uma nova prefeitura e uma câmara dos vereadores livres de compromissos com o poderoso Secovi, maior sindicato de comércio imobiliário da América Latina.

Mas - em nome de que Deus faria uma coisa dessas? Em nome de que impediria a cidade de, digamos - "crescer"? Não, Deus não precisaria ser socialista. Nem urbanista. Bastaria agir em nome de um valor que está presente em todas as perspectivas sagradas, religiosas ou simplesmente humanistas: em nome da delicadeza. Bastaria considerar que as cidades não existem para impressionar e oprimir as pessoas, mas para ampliar a esfera da liberdade, das possibilidades e daquilo que se costuma chamar de urbanidade.

Nesse ponto convido o leitor a trocar a vista aérea de São Paulo pelo ponto de vista pedestre. Basta descer um pouco do carro e passear a esmo pelas ruas. Se achar a proposta muito mixuruca, finja que é Baudelaire flanando por Paris no século 19, tentando captar o que sobrou da antiga cidade depois da monumental reforma executada por Haussmann a mando de Napoleão III. Ou finja que você é o João do Rio, cronista da capital brasileira reformada por Pereira Passos. A diferença, claro, é que essas duas enormes destruições/reconstruções urbanas foram planejadas visando a modernizar o espaço público, enquanto hoje a construção civil compra o poder público e faz literalmente o que quer em nome do interesse das pessoas, isto é, do mercado. Parece que o mercado é igual à soma das vontades das pessoas. Não é. O que chamamos mercado é um dispositivo formado por poucos, porém grandes interesses, que se impõe às pessoas de modo a determinar o que elas devem querer.

O que será de uma cidade que destrói todas as suas reservas de delicadeza, de graça, de modéstia? Caminhe um pouco pelas ruas de seu bairro em busca dos cantinhos que ainda não foram devastados por alguma obra grandiosa e brega. O que será de uma cidade sem varandas? Sem janelas dando para a rua - e o gato que espia pelo vidro de uma delas? O que será de nosso convívio diário numa cidade sem o pequeno comércio da rua, responsável pelo território coletivo onde as pessoas aos poucos se conhecem, se cumprimentam, conversam? Uma cidade sem zonas de familiaridade? O que será de uma cidade sem as vilas com casas antigas onde o pedestre entra sem passar por uma guarita e encontra um micro-oásis de sombra e silêncio? Sem a minúscula pracinha que sobrou numa esquina onde se esqueceram de construir outra coisa? Procure os lugares em que ainda seja possível o encontro entre o público e o privado, o íntimo e o estranho, o desafiante e o acolhedor. O que será de uma cidade que é pura arrogância, exibicionismo e eficiência? O que será de nós, moradores de uma cidade que despreza a vida urbana?